Prefácio
O Tao faz parte da grande tradição chinesa. Ele é o resultado de uma civilização agrícola cuja ancestralidade remonta a dois mil anos antes de nossa era. Naqueles tempos remotos, a irrigação já era conhecida, utilizava-se o forno de cerâmica e os homens domesticavam animais. Uma Dinastia mítica governava então o país. Quinhentos anos depois, foi inventado um sistema de escrita logográfica. A fundação de Roma veio a ocorrer somente quando os chineses já tinham mil e trezentos anos de história enquanto nação, estando em sua terceira Dinastia.
É provavelmente num período de grande riqueza intelectual que aparecem os três principais mestres do Tao, cuja atuação se distribui no período que vai de 570 a 286 a.C. Nessa época, Confúcio (551479 a.C.) se impõe, logo refutado por Mo-Tzu (479-381) — fundador do moísmo —, e depois aprovado por Mencius — Mong-Tzu (372-289). É por volta do século III a.C. que os chineses inventam o carrinho de mão. Eles já contavam com a existência de um código jurídico escrito, de arados de ferro e de um considerável número de técnicas artísticas.
Curiosamente, esse povo inventivo e brilhante é considerado como um povo complexo e preso a contradições inextricáveis. Essa visão superficial está de tal forma enraizada que, em francês, chega a conjugar-se: chinoiser tomou-se um verbo! E, no entanto, o Tao ensina o contrário; julguemo-lo por nós mesmos:
”Abandona a tua sabedoria e a tua inteligência
O povo tirará disso muito mais proveito
Abandona a tua justiça e a tua caridade
E verás renascer o amor de pai para filho
Abandona a tua astúcia e a tua sede de lucro
E verás desaparecerem vadios e trapaceiros
Quando essa tríplice recusa tiver eliminado o disfarce
Toda a arte de governar se fundará nesse preceito:
Apreende o simples, limite-se ao primitivo
Limita o teu eu e refreia as tuas paixões. “
(Tao Te Ching 19)
Próximos da natureza, os mestres do Tao eram homens ponderados, independentes, livres e diretos no que se referia â sua maneira de expressar-se. Eles podiam ser cáusticos sem animosidade, críticos mas não vingativos, divertidos sem vulgaridade, profundos e não herméticos.
Em última análise, apresentar personagens desse tipo — sempre atuais pela vivacidade de seu espírito — não pode depender inteiramente de um trabalho erudito. Parece necessário, na medida do possível, permitir que eles se expressem por si próprios, transcendendo problemas relativos à tradução, às referências e às definições acadêmicas. A compreensão que emana dos textos, bem como o encontro com um pensamento que, embora muito antigo, permanece atual, são os fatores que guiaram a nossa escolha. Por outro lado, contudo, não negligenciamos completamente a presença de esclarecimentos, com o objetivo de atender a um estudo mais profundo dos temas considerados. Dessa forma, este livro pode ser apreciado tanto como um documento de trabalho, quanto como uma leitura de entretenimento.
Os ensinamentos tradicionais nunca ficaram confinados a uma elite específica. Um dos maiores sábios que a China conheceu, o sexto Patriarca da linhagem ch’an, era iletrado; quanto aos três grandes mestres do Tao, foram praticante ignorados em sua época, e, algumas vezes — como ocorreu com Chuang-Tzu —, pouco apreciados. E, atualmente, os especialistas se unem na afirmação de que talvez se trate do maior poeta chinês! Seja como for, não é possível deixar de ter simpatia quando Lao-Tzu, provável fundador do taoísmo, convida à maturação da ideia.
A maioria dos mestres do Tao permanece desconhecida. Há muitas razões para que isso ocorra; a principal delas parece ser a alta consideração atribuída à virtude do “não-agir”. Libertados de todas as contingências do mundo comum, eles escolheram retirar-se para o silêncio. No que se refere àqueles que indicaram um caminho a ser seguido, dizem os textos que, através deles, é a própria realidade que se expressa. O título de “Mestre” parece então ser pouco adequado para designar esses seres raros que, conscientes dos obstáculos da existência efêmera, apresentaram o caminho da imortalidade aos homens. Mas, na impossibilidade de transmitir a natureza exata de sua realização, devemos admitir que, tendo chegado a atingir a luz do Tao, eles se transformaram em “consciência esclarecida”. Verdadeiros sábios, esses portadores da tocha do saber onisciente não podem ser submetidos a uma análise comum. Também não é possível abordá-los sem que haja pureza de intenções.
De forma alguma se encontra, na tradição taoísta, a severidade dos textos extraídos da Bíblia. As questões essenciais, formuladas com a mesma acuidade e, por vezes, com maior clareza, apresentam, esporadicamente, uma forma leve, que lembra uma brincadeira. Isto porque,longe de serem rebarbativos, os mestres do Tao utilizam vários meios disponíveis para atingir seu objetivo. A linguagem simbólica é constantemente subjacente; a parábola, a anedota e o conto são adequados aos temas. De qualquer maneira, é a linguagem ilustrada pelo exemplo que fundamenta o texto. Essa apresentação é extremamente útil, oferecendo a vantagem de permanecer atuante dois mil e quinhentos anos depois.
Seria errôneo crer que, em função de sua forma simples, o Tao seja de fácil apreensão. Ela não é nem mais difícil, nem mais fácil de compreender que a realidade do ser em transformação. Como qualquer religião, o taoísmo não é mais que um caminho traçado que tende para um objetivo. A apreensão de um tema está Ligada, frequentemente, a um encontro de aparência fortuita. Nada é excluído do potencial designado pelos textos. Passar do virtual ao efetivo exige a presença de uma disposição individual.
Por último, a obra dos três principais mestres do taoísmo se estruturará no decorrer dos anos — evolução que começa mais particularmente na segunda metade do décimo século de nossa era. Houve a incorporação de ritos e divindades, bem como a fundação de escolas. A pureza original dos sábios eremitas foi mais ou menos deformada, mas a perspectiva do Tao permaneceu como valor primordial.
Quaisquer que sejam as formas adotadas pelo taoísmo nos dias de hoje, o Tao, frequentemente comparado ao vazio, permanece fundamentalmente um não-ser irrefutável. Essa abordagem do sagrado não pode
envelhecer, pois, não podendo ser definido, esse sagrado reflete o eixo central metafísico que, enquanto realidade última, é inexprimível. Sendo permanência imutável, o Tao não está sujeito ao desgaste provocado pelo tempo. Ele é, antes de tudo, um plano de estabilidade.
”O Tao oculto não tem nome.
Contudo, somente ele
sustenta e aperfeiçoa todos os seres. “
(Tao Te Ching 61)
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